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‘O Dever da Memória’ é um livro sobre o 'bidonville' português em França

20/10/17 COMUNIDADES Imagem

Depois de ter pensado e concretizado a construção de um monumento memorial no local em Champigny-sur-Marne onde nos anos 60 e 70 havia o maior bairro de lata português em França, o empresário Valdemar Francisco, lançou agora um livro que conta a história do projeto do monumento e mantém viva a memória da dureza da vida de quem emigrrou para França naquelas décadas

Se o monumento grandioso em Champigny-sur-Marne teve honras de inauguração do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em 2016, durante as celebrações do Dia de Portugal em França, também o tevo o lançamento de ‘O Dever da Memória’.
Depois do projeto do memorial, Valdemar Francisco não parou e mesmo referindo que não é historiador, escreveu um livro o ‘O Monumento, O Dever de Memória’ e fez uma edição especial para ajudar as vítimas dos incêndios de Portugal.
O livro aborda os tempos em que os portugueses viveram nos chamados ‘bidonville’, os bairros de lata em Champigny-sur-Marne, mas também a aventura da construção do monumento – que alem dos portugueses, homenageia o antigo autarca Louis Talamoni pela ajuda prestada aos emigrantes portugueses.
Coube agora o lançamento do mesmo na Casa do Alentejo em Lisboa com a presença do Presidente da República, que assina o prefácio do livro. Presentes também embaixadores jubilados que passaram por França como António Monteiro e Francisco Seixas da Costa, deputados, ex-governantes, personalidades e cerca de 160 amigos que vieram de França propositadamente. Na sala distintos empresários portugueses em França, que na sua grande maioria recordam que seus pais e alguns viveram no ‘bindonville’, mas que hoje singraram na vida, empregam centenas de funcionários e presidindo a várias empresas.

Edição solidária
A publicação propriedade da Associação que preside, a ‘Les Amis do Plateau’, e editado pela Portugal Mag Edições, teve uma tiragem de 5.000 exemplares e contou com uma edição especial de mais 300 exemplares, com a menção “edição solidariedade”, cujas vendas reverteram para as vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, no qual Valdemar Francisco nasceu. Obra com centenas de fotos de fotojornalistas consagrados, assim como outras recolhidas das memórias pessoais de quem não esquece, conta com prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa.
As 224 páginas estão repletas de fotografias, desde as que foram tiradas nos anos 60 nos ‘bidonville’ pelos fotógrafos Jean-Claude Broustail e Gérald Bloncourt, às que foram tiradas durante a construção do monumento e venda de tijolos para o financiar parcialmente. O livro tem, ainda, um DVD com fotografias, vídeos dos discursos das personalidades que falaram na inauguração.
O livro fala sobre Champigny, quando havia o bairro de lata onde Valdemar Francisco viveu alguns anos , fala de Louis Talamoni que ele próprio conheceu - o autarca comunista e senador de 1950-1975 que “era um homem de garra e com um grande coração” - e do monumento.
Até hoje é o único monumento erigido por emigrantes portugueses em homenagem ao país que os acolheu, a França, refere Valdemar Francisco no preâmbulo deste livro. Registe-se que foram 2.176 as pessoas que assinaram os tijolos que revestem oito colunas em torno da escultura central do monumento, desde anónimos portugueses que vivem em França, ao Presidente da República, ao primeiro-ministro António Costa.
A obra foi colocada no mesmo Parc do Plateau e resultou de uma iniciativa promovida pelo ex-embaixador em França, António Monteiro, e pelo serviços da embaixada de Portugal naquele país, “sendo de salientar a acção desenvolvida pelo conselheiro social Vitor Gil, contou ainda com a colaboração da Câmara de Champigny, de várias empresas e de bancos portugueses”, sublinha Valdemar Francisco.
Num discurso emotivo no qual lembrou que teve pai e avô emigrante, e filho de igual modo emigrante, o Presidente da República recordou Louis Talamoni a quem tantos estão agora eternamente agradecidos e que tinha uma frase que o caracterizava: “É bem preciso que o sol brilhe para toda a gente”.

Depois do livro, o filme...
Valdemar Francisco chegou a França a 14 de maio de 1960, com seis anos, e viveu nove anos no ‘bidonville’ de Champigny, tendo começado a trabalhar com 12 anos após a morte do pai. Aos 28 estabeleceu-se por conta própria e está à frente de um grupo de empresas de construção civil que emprega diretamente 123 pessoas e que contrata cerca de 200, na maioria portugueses ou lusodescendentes.
Valdemar Francisco nunca esqueceu a ajuda dada aos compatriotas por Louis Talamoni, o autarca de Champigny que, entre 1956 e 1972, data da extinção do ‘bidonville’, providenciou o fornecimento de água e eletricidade, a escolarização das crianças, o acesso aos cuidados de saúde, banhos, a recolha do lixo e a instalação de esgotos. Presidente da Les Amis du Plateau, a associação que construiu o monumento, Valdemar Francisco considera que falar do passado dos portugueses nos ‘bidonvilles’ é “um dever de memória” e foi isso que o motivou a avançar com esta ideia.
Em entrevista refere que lhe ficou bem assente na memória a ida da estação de Pombal para França: “foi chegar à Gare de Austerlitz e ver aquilo tão grande e depois ver nos cafés aquelas máquinas de gira-discos, as jukebox. Eu tinha feito uma promessa de que quando tivesse tempo, faria algo pelo Louis Talamoni, que foi um humanista. Lembro-me, quando em criança, ele falou comigo, como se eu fosse um adulto, e isso marcou-me muito”.
“As pessoas chegavam de autocarro, de táxi, carro… de todo o lado! Chegamos a ser mais de 20 mil pessoas. E esse senhor que sempre quis desmantelar aquele local, conseguiu também trazer condições, para quem lá morava. Lutou muito por isso, e deu-nos uma grande ajuda. Distribuía botins, mandou vir água através das fontes paga pela câmara. Mandou por electricidade e esgotos… apanhar os resíduos. Tentou organizar aquilo como se fosse uma vila. Por isso… o monumento. Agora decidi fazer então o livro, que tem tido um grande sucesso”, acrescentou.
Refere que gostava de ter sido arquiteto, mas não foi possível. “O meu pai morreu, quando eu tinha 12 anos. Fiz a escola enquanto era obrigatório, mas mesmo assim perdi muito tempo para ir ganhar algum e ajudar a minha mãe”, recorda.
O objectivo do livro é fazer conhecer e deixar tudo registado. E tem também outro intuito: angariar fundos para levar a Portugal os professores que deram aulas no ‘bidonville’, nos anos 60. Para eles conhecerem Portugal e irem ao encontro dos alunos que tiveram”, refere.
O agora comendador Valdemar Francisco sempre teve a intenção de fazer um monumento e um documentário, para não deixar cair no esquecimento e deixar registado toda essa fase da emigração.
Na sala presente, Christophe Fonseca, o realizador luso descendente que já realizou mais de quarenta filmes, afirmou-se pronto para o desafio para que a memória perdure e jamais os portugueses em qualquer parte do mundo, sofram os que estes do ‘bidonville’ sofreram.

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