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O ensino do português em Espanha e Andorra representa duas realidades distintas e bem sucedidas

28/09/17 ATUALIDADE Imagem

Durante a visita a Andorra, o Presidente da República encontrou-se com alunos de língua portuguesa naquele Principado - que representam cerca de 41% da totalidade dos alunos portugueses registados no sistema educativo local. Andorra é um exemplo do sucesso do Ensino Português no Estrangeiro. O outro é Espanha onde, apenas no ensino básico e secundário, 26.885 alunos estão a aprender português. E o ano letivo, que agora se inicia, trará novidades para ensino da língua portuguesa nos dois países, como revela Filipa Soares, coordenadora do EPE em Espanha e Andorra desde 2010.

A CEPE Espanha e Andorra tem a particularidade de agregar duas realidades distintas do ensino da LP no estrangeiro (PLE/Espanha e PLH/Andorra). Em Espanha observa-se um aumento do número de alunos? E em Andorra?
A CEPE Espanha e Andorra agrega, como bem diz, duas realidades educativas distintas. Em Espanha o ensino do português é ministrado em regime integrado na vertente de PLE (Português Língua Estrangeira) e em Andorra em regime de ensino paralelo na variante de PLH (Português Língua de Herança), com duas exceções - no Lycée Comte de Foix e no ensino secundário do sistema educativo andorrano (11º e 12º), em que a língua é ministrada em regime de ensino integrado como PLE.
Sendo duas realidades distintintas e, por conseguinte, que requerem análises separadas, penso estarmos perante realidades bem sucedidas. No caso espanhol, 26.885 alunos estão a aprender português como LE no ensino básico e secundário. Deste total, 5.492 alunos pertencem à rede EPE Espanha e os 21.393 restantes integram as redes autonómicas de ensino do Estado espanhol, demonstrando o interesse crescente das autoridades educativas espanholas autonómicas em implementar o ensino da língua portuguesa como língua estrangeira de opção curricular e, por conseguinte, reconhecendo o português como língua de comunicação internacional.
Em Andorra, deparamo-nos com outro contexto educativo. Em primeiro lugar porque a variante de ensino adotada é principalmente a de Português Língua de Herança, não sendo possível transpor a realidade do EPE Espanha para o EPE Andorra e, por outro lado, porque estamos a falar, em termos de densidade populacional, de realidades completamente diferentes, em nada comparáveis.
Contudo, parece-me importante referir que, durante o ano letivo transato, integraram a rede EPE Andorra 191 alunos, representando aproximadamente 41% da totalidade dos alunos portugueses registados no sistema educativo do Principado, tendo em consideração os indicadores oficiais do serviço nacional andorrano de estatística, publicado no último censo de 2016.

Que novidades haverá no novo ano letivo em Espanha e em Andorra a nível dos ensinos básico e secundário? Há a possibilidade de abertura de novos cursos de português?
Penso que a palavra de ordem é consolidar e alargar os planos de atuação à esfera cultural em interação com os agentes locais, fomentando, entre outros, planos de incentivo à leitura, como por exemplo, encontros com escritores, participação em concursos literários ou a participação em projetos europeus, intercâmbios escolares, etc...
A rede EPE Espanha e Andorra é composta, no ensino básico e secundário, por 25 professores que trabalham afincadamente no terreno. Estão perfeitamente integrados, trabalham conjuntamente com os seus pares pedagógicos. Estamos convictos que é este trabalho em equipa que tem permitido o crescimento do ensino do português em Espanha de maneira exponencial e que em muito contribuiu para a dignificação do estatuto da própria língua.
Pelo exposto, acreditamos sinceramente que a implementação e consolidação da língua portuguesa nos currículos se tem feito não só pela implementação de medidas políticas, sem dúvida importantes, mas também pelo trabalho realizado pelos professores da rede EPE e pela organização de programas complementares, que têm vindo a proporcionar aos alunos da nossa rede a descoberta do vastíssimo património cultural e linguístico de uma língua falada por 260 milhões de falantes.

EM ESPANHA

Em Espanha, foram assinados já vários memorandos de entendimento, como na Galiza e na Andaluzia: o que trazem a mais ao ensino da LP? Estão em processo de negociação ou/e de assinatura outros memorandos com outras regiões autónomas?
Os memorandos de entendimento (como já afirmei noutras ocasiões) contribuem para a dignificação do estatuto da língua. São um instrumento primordial para a implementação e ou consolidação das políticas linguísticas de uma língua estrangeira. No nosso caso, a assinatura de memorandos de entendimento permitiu o crescimento exponencial do português como língua estrangeira de opção curricular.
Já assinámos vários memorandos de entendimento, nomeadamente, o Memorando de Entendimento (MdE) entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Educação e Ciência da República Portuguesa e o Ministério da Educação, Cultura e Desporto do Reino de Espanha no âmbito do Ensino não Superior e da Língua, assinado durante a XXV Cimeira Luso-espanhola, no Porto, a 9 de maio de 2012, no qual se estabelece um Plano de Atuação para a promoção das línguas portuguesa e espanhola nos sistemas educativos de ambos países e, por outro, os Memorandos de Entendimento assinados entre o Camões, IP e a Junta da Andaluzia, em 2014 e, mais recentemente, com a Xunta da Galiza, em 2015, na presença do então Presidente da República, Professor Doutor Cavaco Silva.
Atualmente, estamos a trabalhar na assinatura de novos memorandos.
Por um lado, avançámos com nova proposta de MdE junto da Comunidade Autónoma da Extremadura de modo a atualizarmos os signatários (recorde-se que existe um MdE assinado em 2009) e introduzirmos novos planos de atuação no âmbito da certificação das aprendizagens, da formação docente e do ensino em PLE na esfera do regime de ensino integrado na Formação Profissional e que, estamos convencidos, será assinado no decorrer deste final de ano ou início do próximo.
Paralelamente, avançámos também com uma proposta de MdE com o Principado das Astúrias, mas apesar da recetividade favorável demonstrada por parte das autoridades autonómicas asturianas, estamos ainda em fase de negociação, sendo, por isso, prematuro falarmos de datas de assinatura.
Ainda em Espanha, em que regiões se verificou o aumento do interesse na LP e do número de alunos?
O interesse pelo ensino aprendizagem da língua portuguesa tem crescido de forma gradual e equilibrada em todo o território espanhol, com preponderância acentuada nas regiões com as quais assinámos Memorandos de Entendimento ou estabelecemos Protocolos de Cooperação. A nível do ensino básico e secundário as comunidades limítrofes a Portugal são um bom exemplo de boas práticas educativas na área do PLE.
As regiões autónomas da Galiza, Extremadura e Andaluzia ilustram claramente esta realidade. Mas, é muito estimulante constatar o crescimento que está a ter o ensino de português na Comunidade Foral de Navarra, a nível do ensino básico e secundário, pretendendo-se, inclusive no próximo ano, iniciar o processo de certificação das aprendizagens em PLE para todos os alunos que frequentam o EPE.

A nível do ensino superior, o Camões, I.P. conta em Espanha com vários leitorados que asseguram o ensino da língua e cultura portuguesas a nível universitário. Haverá novidades no ano letivo de 2017/2018?
A nível do ensino superior o ensino do português como LE está presente em 15 instituições de ensino superior, das quais 14 assinaram Protocolos de Cooperação com o Camões, IP. A presença do português nas universidades faz-se também notar pela ação desenvolvida pelos dois leitorados, um na Universidade de Extremadura e outro na Universidade de Santiago de Compostela, e pelas ações desenvolvidas pelos Centros de Língua portuguesa - Barcelona, Cáceres e Madrid - adstritos às universidade que asseguram, em simultâneo, o ensino da língua e o desenvolvimento de programas de ação cultural e científica associados a grupos de investigação reconhecidos no meio académico espanhol.

Outra componente importante no ensino da LP a nível superior são as Cátedras, que dinamizam a investigação e o ensino em múltiplas áreas. Se não estou em erro, há quatro Catedras do Camões, I.P. em Espanha. Dessas, referiu em particular a Cátedra Mário Casariny na Universidade das Ilhas Baleares, em Palma de Maiorca: é uma Cátedra com forte componente cultural? É voltada para a Tradução/Interpretação? Tem como diretor Perfecto Cuadrado. Pode dizer-se que o professor, ensaista e tradutor tem sido um grande dinamizador do ensino da LP em Espanha?
As Cátedras asseguram a investigação científica, o ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas em varíadíssimas áreas de conhecimento, contribuindo sobremaneira para a dignificação do estatuto da Língua Portuguesa enquanto Língua de Ciência.
No caso concreto da Cátedra Mário Cesariny e ao papel que tem vindo a desempenhar o professor Perfecto Cuadrado, referência indiscutível na difusão da língua e cultura portuguesas em Espanha, penso tratar-se de um reconhecimento merecidíssimo da nossa parte a um dos maiores dinamizadores e digno defensor dos Estudos Portugueses em Espanha.
A criação da Cátedra Mário Cesariny é também uma homenagem aos movimentos de vanguarda portugueses e, nesse sentido, no âmbito da Cátedra, a Universidade das Ilhas Baleares irá promover uma série de iniciativas que se centrarão essencialmente em quatro linhas de investigação. A saber: i) Modernidade e Vanguarda na Literatura e na Arte Portuguesa. Surrealismo em Portugal. Mário Cesariny, vida e obra; ii) Didática da Língua Portuguesa e sua Literatura; iii) Estudos de Cultura Portuguesa e iv) Literatura Portuguesa e seus Diálogos com Outras Literaturas e Outras Linguagens.

EM ANDORRA

Em Andorra é dinamizado o ensino do Português como Língua de Herança. Neste Principado, quais são os objetivos a médio e longo prazo para o ensino da LP?
No âmbito do EPE Andorra, continuamos a querer chegar a mais alunos. Atualmente cobrimos, como já mencionado, 41% dos alunos portugueses que integram o sistema educativo do Principado. Mas somos também cientes que existem alunos de nacionalidade andorrana de origem portuguesa, que gostávamos que viessem a integrar a nossa rede, por forma a não perderem esse vínculo com o país de origem dos seus familiares e sentirem-se, também eles, parte dessa comunidade portuguesa espalhada pelo mundo.
Em termos de objetivos, sabemos que é difícil, mas continuaremos a trabalhar para a integração do português no sistema educativo andorrano, designadamente a nível do ensino básico (já está integrado no ensino secundário andorrano). Estamos muito satisfeitos com os resultados alcançados pelos nossos alunos nos exames de certificação das aprendizagens, demonstrando que, apesar de alguns constrangimentos, a conjugação de sinergias entre corpo docente, encarregados de educação e alunos consegue levar este projeto a bom porto.

Referiu como um processo de ‘sucesso’, a integração da LP no sistema de ensino francês em Andorra? Do que se trata exatamente, de que realidade de alunos/profressores estamos a falar?
Em Andorra convivem três sistemas educativos: o andorrano, o espanhol e o francês. Este sistema tripartido obriga-nos a trabalhar, de forma conjunta e articulada, com o Ministério de Educação andorrano e, também, com as áreas educativas francesa e espanhola por forma a alcançarmos novos acordos que favoreçam a integração da língua portuguesa nos diferentes sistemas e, por conseguinte, a dignificação do estatuto da língua.
Por este motivo, considero que a integração do português no sistema educativo francês, designadamente no Lycée Comte Foix, e a inclusão da nossa língua na Secção Internacional do Centro representam um avanço expressivo de uma nova realidade, deixando-se de circunscrever o ensino da língua ao conceito de LH, mas ampliando a sua aprendizagem enquanto língua estrangeira.

Que eventos celebram ou dinamizam e que se irão manter tanto em Espanha como em Andorra?
A celebração da língua e cultura portuguesas faz-se diariamente em contexto de aula, fora dela, na interação com os alunos, com os pares pedagógicos e também com os agentes locais. Este é o espírito da rede EPE Espanha e Andorra.
Os nossos professores são conscientes da responsabilidade inerente ao seu trabalho, sabem que não são meros professores, são embaixadores da língua e da cultura portuguesas. Representam o Camões, IP e, por conseguinte, Portugal.
Pelo anteriormente exposto, o EPE Espanha e Andorra desenvolve de forma regular um plano de ação cultural que envolve a comunidade educativa espanhola e andorrana no seu conjunto e as autoridades locais, como por exemplo encontros literários, ciclos de cinema, ações pluridisciplinares como “Portugal no meu Pensamento”para comemorar o Dia da Língua Portuguesa e da CPLP, entre outras.
Paralelamente, continuamos a apostar na formação docente. Consideramos que um ensino de qualidade passa pela oferta contínua de um programa de formação e, por este motivo, trabalhamos conjuntamente com o Ministério espanhol e as autoridades educativas autonómicas. Tanto assim é que já realizámos várias ações no decorrer deste ano de 2017 e iremos organizar mais três até final do ano sobre: “O cinema como recurso didático em PLE, a realizar em Badajoz, nos próximos dias 6 e 7 de outubro”; “A (pre)ocupação com o ensino da(s) fonética(s) da Língua Portuguesa em PLE/PL2 na Galiza”, a decorrer no CCP-Vigo, a 17 e 18 de novembro e, por último,“Escrita criativa nas aulas de PLE/PL2”, a decorrer em novembro ou dezembro, em Sevilha.
Por último, gostava de destacar que estamos a trabalhar conjuntamente com o Ministério de Educação espanhol para a criação de um Protocolo de Cooperação que reconhecerá o Instituto Camões como entidade formadora e certificadora na área da formação contínua dos docentes, designadamente na modalidade e-learning.

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