edição digital

Prof. João Mota Barroso: “Houve uma altura em que todos queriam fazer a sua própria adega, eu decidi dedicar-me à Adega de Borba…”

08/09/17 ECONOMIA Imagem

Fundada em 1955, a Adega de Borba foi a primeira de uma série de adegas constituídas no Alentejo. Hoje reúne 300 viticultores associados que cultivam cerca de 2000 hectares de vinha. Sempre em busca do reforço da qualidade dos seus produtos, a Adega de Borba tem em marcha um ambicioso projeto de aproximação do viticultor à adega, incutindo neste a paixão de fazer grandes vinhos. O ‘Mundo Português’ foi conhecer este projeto e conversou com o professor João Mota Barroso, presidente da Adega de Borba há cerca de 15 anos.

Como é que começou a trabalhar na Adega de Borba?
Eu vim parar à Adega de Borba porque a minha família tem uma exploração de fruta e vinha e já era associado da adega. Houve uma altura em que havia mais ambição e todos queriam fazer a sua adega, mas eu pensei um pouco diferente e decidi dedicar-me à Adega de Borba, passados 15 anos acho que fiz bem, porque tenho a certeza que se tivesse feito a minha adega ter-me-ia dado muito mais trabalho e hoje teria muito menos satisfação, duvido que tivesse um nível de execução que me desse prazer. Isto tem a ver com as próprias pessoas, há quem se sinta mais confortável ou satisfeito com o seu projeto ou a sua marca, ainda que ele tenha pouco sucesso em termos de execução. Eu sinto-me melhor participando num projeto, ainda que seja coletivo, mas que tenha um nível de execução mais favorável. Não ligo muito ao protagonismo.

Em 15 anos quais foram os momentos mais importantes da Adega de Borba?
Podemos resumir os últimos anos da Adega de Borba da seguinte forma. Houve um primeiro ciclo, o de profissionalização da adega em que à semelhança de muitas outras adegas, esta, há 15 anos atrás, carecia de profissionalização nos diferentes setores em que se compunha e esse foi o principal desafio. Profissionalizar todos os serviços da adega, inclusivamente a própria gestão. Nos primeiros quatro anos foi esse o principal desafio.
Depois, investimos na atualização do parque industrial e também na inovação ao nível das marcas. Esta inovação é mantida sempre, é um processo que nunca está completo, todos os anos estamos a inovar em termos de novas tecnologias e equipamentos e ao nível dos quadros também. Estão sempre a entrar novos colaboradores e a haver formação dos mais antigos. Não acabou, mas de facto houve uma altura em nos preocupámos mais com esta parte.
Hoje a adega tem estes desafios praticamente vencidos e o nosso desafio principal gira em torno da sustentabilidade da instituição. Para nós, enquanto projeto cooperativo, a sustentabilidade ao nível socioeconómico da região é muito importante. O repartir o valor para a região é extremamente importante até porque a adega acaba por ser o sustentáculo de um conjunto muito grande de famílias. O nosso projeto é interessante enquanto for um projeto extrativo de valor daqui, não para levar para outro sitio qualquer, mas sim enquanto trouxer valor para a região. Este braço da sustentabilidade socioeconómica é muito importante para nós.
Claro que depois, ao nível da sustentabilidade ambiental é também importante e temos hoje vários projetos nesta área, quer na vinha, quer na adega para conseguir racionalizar métodos e tornarmo-nos mais eficientes ao nível das várias operações, porque é verdade que nas áreas ambiental, energética, de poupança de água e de impacto ao nível das vinhas está tudo a avançar muito rapidamente em termos de necessidade, até mesmo para a atividade ser sustentável. Isto já se está a verificar este ano com a seca, e é dramático. O viticultor, um importante operador do projeto da adega, porque é ele que está na base, tem que ter consciência que a sua atividade só existirá daqui a 20 ou 30 anos se mudar determinados procedimentos, porque se não mudar, não vai ser viável. Esta componente de sustentabilidade ambiental não pode ficar apenas ao nível dos quadros ou das comunicações para a imprensa, essa não é a preocupação, a nossa preocupação é ver se, de facto, todas as cadeias do processo, particularmente as da vinha, uma vez que são pessoas que dedicam menos tempo à sua atualização técnica, têm que perceber que é, para eles, absolutamente crucial. A adoção de determinadas práticas alternativas a algumas que eles vinham a fazer no passado é absolutamente crucial.

(...) O viticultor, um importante operador do projeto da adega, porque é ele que está na base, tem que ter consciência que a sua atividade só existirá daqui a 20 ou 30 anos se mudar determinados procedimentos, porque se não mudar, não vai ser viável. Esta componente de sustentabilidade ambiental não pode ficar apenas ao nível dos quadros ou das comunicações para a imprensa (...)

Já se sabe quais são essas técnicas?
É um trabalho para o qual sabemos o caminho, há respostas para muitas perguntas que não sabíamos, apesar de ainda haver muito a fazer. Por exemplo, todos gostariam de saber, como é que fazemos uma vinificação que precisa de muito frio. O principal impacto energético da vinificação é a necessidade de arrefecer milhões de toneladas de massas numa altura em que no exterior está um calor tórrido. Mas esse calor tórrido significa energia, todos gostaríamos de transformar este calor em energia do frio. Quanto mais nós necessitamos de frio é porque existe mais calor. Ao nível industrial ainda não há respostas tecnológicas para isso. Não tenho dúvidas nenhumas que daqui a alguns anos há de haver e é absolutamente necessário que haja.
Nós temos uma capacidade instalada de frio, para trabalhar um mês e meio durante o ano, que é absolutamente irracional, é muito difícil, quando nessa mesma altura temos um superavit de calor disponível para transformar em energia se isso tecnologicamente for possível. Este é um exemplo, apesar de haver outros exemplos. Há muitas oportunidades aqui para trabalhar e nós temos participado em alguns projetos com universidades e outras instituições para estarmos na linha da frente e ver se conseguimos, por um lado ajudar naquilo que são as necessidades no terreno e por outro lado ver se rapidamente somos os primeiros a poder utilizar. Primeiro teve que haver a consciência da necessidade, depois a capacidade de investimento e é como tudo o resto, há sempre uma primeira linha que vai fazer o caminho, mas que não tenho dúvida nenhuma que este vai ser o caminho seguido por todos, como aconteceu com outras tecnologias no passado.

Porque criar um amplo portefólio de marcas?
A diversificação de marcas nem sempre é uma vontade nossa, é a necessidade de nos adaptarmos às necessidades de mercado que existem. Quer queiramos, quer não, no caso dos vinhos do Alentejo isso é flagrante, até porque partiram de uma situação mais atrasada do que noutras regiões, mas acho que acontece um pouco com todas as regiões, há alguns anos atrás a produção estava um pouco mais à vontade no mercado para poder oferecer determinadas marcas. Hoje o mercado tem um poder que ultrapassa qualquer produtor, por maior que ele seja, o produtor atualmente já não pode dizer, “olhe tenho aqui esta marca, se quiser quer, se não quiser, não quer”, quem tiver esta postura caba por desaparecer. Hoje o produtor tem que manter um diálogo com a parte comercial, com os diferentes mercados. Sobretudo na exportação, em que são todos diferentes uns dos outros. Em Portugal, acontece o mesmo, com a dimensão estratosférica da grande distribuição que naturalmente impõe conceitos e vontades que são incontornáveis uma vez que não há volta a dar, o mercado está ali.
Assim, a necessidade de adaptação ao mercado impõe que nós tenhamos de facto muitas vezes a propor mais marcas que nem pensaríamos fazer se não houvesse esta necessidade. O mercado assim o exige. Aquilo que noto é que mesmo produtores muito pequenos têm quase tantas marcas como nós.

Para que países exportam?
Nós não somos muito diferentes das restantes empresas do setor. Em Portugal exporta-se a maior parte para a diáspora, para nós talvez o mercado da Rússia tenha sido o único fora deste caminho e depois fomos alargando para outros mercados.

O que acha da descoberta de Portugal pelas novas cadeias de distribuição alimentar do mundo?
A grande distribuição, sobretudo a Europeia, também pretende chegar aos nossos emigrantes, é uma cota de mercado que não é desprezível. Tal como a nível nacional, primeiro, os grandes grupos não vinham montar um supermercado em Borba, ficavam-se por Évora, mas numa segunda fase vieram para Borba. As redes começaram a ir buscar cada vez mercados mais pequenos, as sub-redes porque no seu caminho de expansão e ocupação de terreno foram otimizando todos os espaços. Acho que isto é o que a grande distribuição está a fazer no estrangeiro. Qual é a grande distribuição na bacia de Paris que pode ignorar o fator português? Não deve, tem que estar atento a ele até porque a componente portuguesa não são só os portugueses, são eles e todos os que estão à volta porque esses entretanto partilham os produtos e cria-se um clube de fãs de produtos portugueses.

Porque é que Portugal, a nível internacional, nunca lançou uma campanha fortíssima para, por exemplo, no Natal oferecer vinho português?
Há muitas oportunidades que estão esquecidas. De facto, na área da promoção ainda temos um caminho muito grande a percorrer. Depois também somos pouco metódicos na execução dos planos, dada a nossa dificuldade em consensualizar ideias. Somos pouco incisivos. Eu acho que qualquer plano, mesmo que não seja o melhor plano, se for executado com método acaba por ter alguma eficiência. Nós andamos sempre à procura do ótimo plano e nunca lá chegamos. Este é o nosso dilema e o setor do vinho por um lado tem uma enorme capacidade e vitalidade, mas por outro lado é muito diversificado, há muitas ideias, muitas vontades e isto não é fácil de consensualizar.

MUNDO PORTUGUÊS - ASSINE JÁ

Medalha de Mérito das Comunidades


Maior Onda surfada do Mundo


Mundo Português TV


Mundo Português APP





Meteorologia

Marcas Grupo