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Da Alemanha recebeu o rigor e de Portugal a alegria e a simpatia

19/04/17 COMUNIDADES Imagem

Martin Andrade já nasceu naquele país, mas mantém a nacionalidade portuguesa. Com o avô e o pai, aprendeu que sem o trabalho, não se tem nada.

Em 1965, e aos 46 anos, o avô emigrou para a Alemanha. Foi o primeiro português a chegar a Weilheim-Teck, cidade da região administrativa de estugarda. O pai foi um ano depois e a mãe dois anos a seguir. Martin Andrade já nasceu naquele país, mas mantém a nacionalidade portuguesa. Com o avô e o pai, aprendeu que sem o trabalho, não se tem nada. E colocou em prática o que ambos lhe ensinaram. Depois de um curso de Canalização, uma especialização e alguns anos de trabalho, abriu uma empresa com oficina onde já trabalham 15 pessoas, quase todos alemães.
O avô, que era natural de Peniche, chegou à Alemanha em 1965. Tinha 46 anos, foi o primeiro português em Weilheim-Teck e um dos pioneiros da emigração para aquele país. “Veio trabalhar na agricultura, o que já fazia em Portugal, para poder construir uma casa no seu país. O meu pai chegou em 1966 e um ano depois chegou a minha mãe. Em 1968 nasceu o meu irmão, eu nasci em 1973 e a minha irmã em 1977”, recorda Martin Andrade.
Os pais regressaram para Portugal, onde já estavam os avós, em 2000, no mesmo ano em que Martin Andrade abriu a empresa. Para trás, Martin deixou um percurso profissional que se iniciou nos três anos de curso de Canalização, passou por cinco anos de trabalho e apredizagem e incluiu ainda uma especialização de um ano que lhe deu o grau e diploma de ‘mestre’. “Aqui é necessário obter esse diploma para poder abrir uma empresa”, explicou ao ‘Mundo Português. Não era a sua intenção na altura, o objetivo era ascender na empresa onde estava e melhorar a nível salarial, mas a falta de valorização levou-o aos 25 anos a arriscar e abrir a empresa, juntamente com um sócio alemão.
“Começamos com dois carros, velhos, arrendamos a oficina e a pouco e pouco aumentamos a área da empresa”, recorda explicando que a empresa faz todo o tipo de canalizações, seja em casas, prédios ou empresas, estufas, aquecimentos, caleiras, e ainda monta casas de banho. “As chapas e os moldes são feitos na nossa oficina. Nas casas de banho, podemos tratar de tudo se o cliente quiser, para além das canalizações montamos as loiças, torneiras, etc, já que representamos esses materiais de marcas diversas”, conta.

Uma autêntica família
O primeiro funcionário foi contratado em 2002 e atualmente trabalham na empresa 15 pessoas, entre o escritório, a oficina e as obras. “Somos uma autêntica família. É preciso haver muito trabalho para manter 15 pessoas, mas damo-nos bem. No Natal organizamos uma festa e de dois em dois anos fazemos um passeio na Áustria, com todos os funcionarios que queiram ir”, revela.
Diz que, felizmente, este é um setor em que não falta trabalho na região onde vive. O problema é haver poucos jovens que queiram aprender a profissão, o que gera dificuldades em termos de contratação de funcionários. “Quando fiz o curso eramos 75 jovens, hoje são 15. E esta é uma área em que há trabalho, as pessoas podem ir longe e eu sou a prova disso. Mas é preciso querer e trabalhar muito”. Martin sabe do que fala. Acorda às 5h da manhã e cerca de meia hora ou 45 minutos depois já está na empresa, a abrir o escritório “e a preparar tudo para a malta”. Geralmente consegue ir a casa ao meio-dia, “para ver a família, nem que seja por meia hora”. A mulher acresenta que “é muito raro conseguir ir por uma hora a casa ao almoço”.
Portuguesa, Fernanda Andrade está na Alemanha desde os 13 anos. Conheceram-se nas aulas de língua portuguesa em Weilheim-Teck - ele a estudar para manter o que aprendeu em casa, ela para não esquecer o que a escola lhe ensinou em Portugal. É Fernanda que garante toda a retaguarda da família, o que permite a Martin trabalhar “até às 20h30 ou 21 horas”, quando regressa a casa. No sábado a rotina também se repete, mas com o ‘bónus’ de sair às 18h. “Aos domingos muitas vezes ainda venho aqui ou vou às obras por duas ou três horas”, conta. “Ele é muito obstinado e metódico”, elogia a mulher.

Da Alemanha e de Portugal
As raízes, a cultura e a afetividade são portuguesas, mas há muito da Alemanha em Martin Andrade. Foi o país onde nasceu e cresceu e onde vive. Mas o que aprendeu com o lado português e o que lhe ficou da vivência alemã? “Do lado alemão, aprendi a ser metódico, as regras rígidas do trabalho, ter uma estrutura de trabalho assimilada. Do meu lado português, recebi alegria, ser aberto, ser dado, algo que os alemães nesta zona não são. Isso veio das minhas raízes portuguesas e ajuda muito na minha relação com o meu sócio ecom os meus trabalhadores”, explica.
Martin garante que conquista “muitos clientes e muito trabalho”, por ser mais comunicativo e simpático com as pessoas. “Tabalhamos com muitos clientes, desde empresas e construtoras ou gestores de edifícios de apartamentos, até proprietários de casas, pequenas e grandes. Isto vem da qualidade do trabalho, mas também das relações humanas”, assegura.
Mas foi com o avô e o pai, que Martin aprendeu que sem o trabalho, não se tem nada. “O querer fazer alguma coisa de útil, arranjar uma profissão e batalhar nela, isso aprendi com eles”, sublinha.
Martin, que tem um sócio e funcionários alemães, garante que é boa a relação destes com os portugueses que vivem na cidade. E diz que a comunidade lusa é bem tratada. “São mais bem vistos do que outros estrangeiros, acho verdadeiramente que gostam de nós”, afirma, acrescentando que apesar de ter ali nascido, mantém a nacionalidade portuguesa. “Podia ter tambéma a alemã, mas a verdade é que nunca foi preciso”, explica.
Por seu lado, fernanda revela que há alturas em que pensam ambos adquiri-la, por um único motivo. “Por causa do tempo que se perde no Consulado de Portugal quando precisamos tratar de algum documento. Perdemos um dia inteiro e às vezes irritamo-nos”, queixa-se.
Em relação ao futuro, questionado sobre até onde gostaria de levar a empresa, Martin revela o projeto de construir um edifício para a empresa, já que o local onde estão é arrendado. “Queremos comprar um terreno e construir a empresa de raiz, talvez daqui a três anos. Esse tem que ser o nosso futuro imediato. Depois, vamos ver o que os filhos querem fazer. O mais velho vai fazer 16 anos e o mais novo vai completar 12 anos. O pequeno parece gostar bastante daqui, vamos ver”. Assume que gostaria de ver este projeto continuado por eles, mas afirma que são os filhos que devem decidir. “Se a vocação deles for outra, quando for mais velho vendo e, se calhar, eu e a minha mulher regressamos a Portugal”, brinca.

Sempre “o nosso país”
E por falar em Portugal, o que representa? “Férias”, responde logo, lembrando que nos primeiros seis anos da empresa, não houve férias em Portugal. Agora o casal já consegue vir com os filhos por três semanas, todos os anos. “Já fomos a outros países, mas as férias mais bonitas são em Portugal”, garante. Férias que são repartidas entre Peniche e Santo Tirso, terra da mulher, para poderem estar com as respetivas famílias. “Portugal é sempre o nosso país, não há igual”, defende Fernanda, apesar de saber que a vida tem que continuar a ser feita na Alemanha.
Outro tema em que concordam, é o futebol: quando o assunto é torcer por uma equipa, essa é a portuguesa, seja para ela, que chegou à Alemanha ainda adolescente, seja para ele, que já lá nasceu. “Seleção tem que ser sempre a portuguesa. Eu também gosto que os alemães ganhem, mas se jogarem com Portugal, somos sempre Portugal”, assegura o Martin. “O Europeu de 2016 soube tão bem, foi tão bom”, ri-se Fernanda. Mas assegura que os alemães estiveram ao lado de Portugal, na final.

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